O corpo sempre sabe antes

Entre livros, experiências femininas e escolhas transformadoras, uma reflexão sobre os “nãos” que abrem caminho para novos começos.

A nós, mulheres, muito foi passado de geração em geração. Herdamos receitas de comportamento, crenças disfarçadas de virtude e exigências tão antigas que, muitas vezes, já nem sabemos de onde vieram. Entre elas, destaco a ideia de que precisamos dar conta de tudo..

Mas quem foi que nos convenceu disso??

Mas quem foi que nos convenceu disso?
Em que momento passamos a acreditar que ser adulta, forte e admirável significava suportar tudo, acolher tudo, resolver tudo e ainda fazer isso com delicadeza no rosto? Quantas de nós crescemos confundindo amor com sobrecarga, competência com exaustão, valor com sacrifício?

A verdade é que carregamos mais do que percebemos.

Carregamos o compromisso com os filhos, com o trabalho, com a casa, com os pais, com os relacionamentos, com a imagem que projetamos, com a expectativa dos outros e, mais do que tudo, com a cobrança que fazemos a nós mesmas. Vamos nos acostumando. Vamos chamando de rotina aquilo que já é peso. Normalizamos o cansaço, adiamos pausas, negociamos o sono e seguimos vivendo no automático.

Quando esse modo de viver se prolonga demais, algo em nós começa a pedir passagem.

Recentemente, publiquei o livro Vai Dar Tudo Certo, de Ju Santana, que me apresentou uma ideia tão simples quanto transformadora: em vez de colocar mais coisas em menos tempo, colocar menos coisas no mesmo tempo. Menos excessos. Menos acúmulo. Menos ilusões de controle. Mais espaço para o que realmente importa. Parece óbvio, mas não é.
Fomos treinadas para somar, não para escolher. Para corresponder, não para discernir. Para preencher todos os espaços sem sequer perguntar se eles realmente precisam estar ocupados.
Então seguimos fazendo planos de mudar. Procuramos dicas, conselhos, fórmulas, métodos, respostas. Olhamos para fora em busca de uma solução que torne a vida mais leve. Só que, muitas vezes, a resposta não chega de fora. Ela já estava se manifestando em nós, tentando nos avisar há muito tempo por meio do nosso corpo.
Até que vem o susto, a dor, o adoecer. O corpo fala quando a boca se cala. Ele interrompe quando a gente insiste em continuar. E, quase sempre, sabe antes.
O corpo percebe os sinais do diagnóstico que se aproxima, do colapso, da lágrima que não se contém, da irritação sem nome, da insônia, da taquicardia, da fadiga que não passa. Percebe até quando estamos vivendo além do que podemos sustentar.
Ele nos avisa quando é hora de comer melhor, de respirar com presença, de dormir de verdade, de nos exercitar e também de parar. Mas é preciso escutá-lo.
Se você estiver atenta, vai perceber o que o seu corpo está tentando lhe dizer. Ele pode estar pedindo descanso. Pode estar implorando por silêncio. Pode estar mostrando que há escolhas sendo feitas contra você todos os dias. Ou apenas lembrando que viver não é cumprir uma lista infinita de deveres, mas habitar a própria vida com sentido.
Estar presente é um ato de coragem.
Dar atenção às próprias necessidades, aos próprios prazeres, ao próprio descanso ainda parece, para muitas mulheres, um luxo indevido. Mas não é. É fundamento. É isso que nos fortalece para escolhas melhores, nos devolve inteireza e nos ajuda a distinguir o que merece ser carregado daquilo que já passou da hora de ser deixado pelo caminho.

Nem toda crise é queda. Às vezes, é chamado.

Chamado para rever o que vem sendo feito no piloto automático, questionar contratos invisíveis que herdamos de nossos pais, da cultura, da educação que recebemos e seguimos honrando sem perceber. Chamado para perguntar, com honestidade: isso ainda faz sentido para mim?
Maturidade tem a ver com aprender a discernir, não com suportar tudo. Com escutar o corpo e sustentar apenas o que tem verdade e deixar para trás os pesos que já não nos formam, apenas nos deformam.
Talvez seja tempo de mudar. Tempo de avaliar o que realmente importa, abandonar a fantasia de que precisamos ser tudo para todos o tempo inteiro, voltar para o corpo, esse lugar sábio que tantas vezes tentamos silenciar.
Porque, antes da mente entender, o corpo já sabe.
E pode ser que ele esteja apenas nos chamando de volta para nós mesmas.

Quem escreve:

Heloisa Belluzzo é publisher, jornalista e fundadora da Heloisa Belluzzo Editora. Pós-graduada em Marketing, atua há mais de 20 anos no mercado editorial com mentoria de autores, publicação de livros e valorização de narrativas femininas.

Recebeu o Woman Awards 2025 na categoria Clarice Lispector por sua contribuição à literatura feminina e também é criadora do projeto Sabedorias Femininas, que reúne histórias e experiências de mulheres do Brasil e do exterior, promovendo conexão, acolhimento e protagonismo através da escrita.

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