Mulheres invisibilizadas: as vozes que a história tentou apagar

Entre personagens fictícias e mulheres reais, uma reflexão sobre aquelas que tiveram seu talento, sua inteligência e suas conquistas silenciados ao longo dos séculos

Quando a literatura nos convida a enxergar o que foi apagado

Como editora venho aprendendo que alguns livros chegam às minhas mãos como um chamado para uma escuta profunda. São obras que acendem um alerta. Foi essa sensação que tive ao receber o manuscrito de Infinitos Passos de Ana, de Rosana de Passos Pádua.

WhatsApp-Image-2026-05-29-at-19.35.40

O livro faz a gente embarcar em uma jornada através dos séculos com a personagem ANA, uma mulher extraordinária que nasceu no ano 1 a.C e que, misteriosamente, nunca envelheceu. Ela vive e testemunha toda a evolução do mundo, por 2 mil anos, sempre com a aparência de uma jovem.

Imagine o que seria poder presenciar um milagre de Jesus, sentar em roda com a esposa de Maomé, assistir chorando a erupção do Vesúvio, frequentar os grandes salões do iluminismo. Sofrer com a peste negra, brincar com o menino Isac Newton e viver o fervo dos anos 80 no Brasil.

A obra é repleta de reflexões sobre a condição humana, nossas crenças e comportamentos patriarcais que muito interferiram e feriram a vida de tantas mulheres. Entre elas eu destaco uma passagem que fala de uma artista plástica que assina seus lindos quadros com o nome de seu irmão e, com isso, consegue vender e sustentar a família.

Essa passagem me tocou nesse livro. Quantas mulheres foram invisibilizadas antes de nós? Quantas tiveram sua inteligência apropriada, sua arte assinada por outros, sua força reduzida ao anonimato?

Quantas mulheres brilhantes foram esquecidas e apagadas da nossa história?

As mulheres que a história preferiu esquecer

Veio à lembrança muitas outras mulheres incríveis que foram apagadas da história apenas por serem mulheres.

Entre elas, a Zelda Fitzgerald — uma mulher brilhante e espirituosa escritora casada com o famoso F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby. Ele se apropriava dos comentários brilhantes de Zelda, de seu diário pessoal e das escritas para criar seus romances e fazer sucesso na sociedade.

Alguém se lembra dela?

Mas ele, sim, está eternizado. Além do livro que virou filme, também pelo famoso drink Fitzgerald. Recomendo que da próxima vez que você pedir esse drink, faça um brinde à Zelda, para que não seja esquecida.

Fanny Mendelssohn é outro exemplo que ficou em casa, em Berlim, compondo as músicas enquanto o irmão, Felix Mendelssohn, viajava pelo mundo arrancando elogios da rainha da Inglaterra. Uma das composições mais famosas dele é Sonho de uma Noite de Verão, que inclui a tão famosa Marcha Nupcial.

Também recomendo que no próximo casamento em que você ouvir essa música que faz nossos olhos se encherem de lágrimas, pense na inspiração de Fanny ao compor essa lindeza de obra, uma música eternizada enquanto sua autora permanece esquecida.

E tantas outras mulheres talentosas, estudiosas, que foram preteridas a cargos de supervisão, direção, presidência e posições políticas em favor de seus colegas homens que trabalhavam com as mesmas condições ou até com menos capacidade?

E esse é um poder de um livro: conversar com a gente, trazer reflexões para nossa vida. E a que trago para hoje é: será que a história parou de apagar mulheres ou apenas encontrou formas mais sofisticadas de silenciá-las?

Não somente no campo da literatura e das artes, pergunto a você, leitora, que teve uma carreira em uma área prioritariamente masculina. Como você avalia a sua trajetória? Você teve que provar o dobro para conseguir ser ouvida e respeitada no seu ambiente de trabalho? Se sentiu sozinha? Se sentiu rompendo esse comportamento, a que custo?

As mulheres devem, merecem e precisam ser ouvidas.

E como editora que sou, abro este espaço para que as reflexões femininas, suas vozes de angústias e curas, sejam ampliadas e cheguem, pelo livro, às mãos e corações de mulheres e homens de todo o mundo.

Quem escreve:

Heloisa Belluzzo é publisher, jornalista e fundadora da Heloisa Belluzzo Editora. Pós-graduada em Marketing, atua há mais de 20 anos no mercado editorial com mentoria de autores, publicação de livros e valorização de narrativas femininas.

Recebeu o Woman Awards 2025 na categoria Clarice Lispector por sua contribuição à literatura feminina e também é criadora do projeto Sabedorias Femininas, que reúne histórias e experiências de mulheres do Brasil e do exterior, promovendo conexão, acolhimento e protagonismo através da escrita.

.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *